CRÔNICA VARJOTENSE
Em setembro de 1978, num trabalho da NUCLEBRÁS – Empresas Nucleares Brasileiras, visando a descoberta de jazidas de minerais radioativos, eu e dois geólogos procedemos a uma pesquisa geológica e geofísica na região próxima e a oeste de Sobral, onde havíamos montado nosso acampamento.
Foram várias as cidades por onde passamos durante aqueles trabalhos de campo, dentre outras: Frecheirinha, Mocambo, Pacujá, Cariré, Forquilha, Groaíras, Varjota, Reriutaba, Pires Ferreira e Ipu. Entretanto, uma imagem que tive de uma delas ficou marcada na minha memória. Logo que chegamos à cidade, vindos do Cariré, na direção de Reriutaba, entramos numa avenida larga, de terra batida. À direita, uma igreja me chamou a atenção pela sua fachada, formada por uma base em cujo topo se destacava um acabamento em forma de pirâmide quadrangular, encimada por uma cruz, encravada de lâmpadas brancas.
Naquele momento, jamais poderia imaginar que, bem em frente àquela igreja, do outro lado da avenida, moravam os pais de uma garota que, dois anos mais tarde, em julho de 1980, eu viria a conhecer, no Rio de Janeiro. Na ocasião em que a conheci, e tendo ela se declarado como natural de Varjota-CE, disse-lhe que, talvez, eu já conhecesse aquela sua cidade, pois havia feito umas pesquisas geofísicas na região, algum tempo antes. Só não me lembrava de que a imagem que guardara da igreja e de sua fachada fora formada em Varjota, conforme descrito adiante.
Em junho de 1981, casei-me com Francisca, a cearense que conheci, no Rio.
Em janeiro de 1982, viajamos para Varjota com o objetivo de me apresentar a meus sogros, parentes e amigos da família de minha esposa. Logo que chegamos à cidade, após passar pelo posto de gasolina São Cristóvão e virar meu fusca-velho de guerra para a direita, vi-me novamente diante do mesmo cenário guardado na minha memória, há uns três anos: a avenida larga, de terra batida e, principalmente, a igreja modesta, sua torre piramidal e o cruzeiro no seu topo.
De fato, antes de conhecer minha esposa, eu havia passado por sua cidade natal, Varjota. Agora, ali, diante daquele cenário, imaginei que o prédio daquela igreja, nem bela nem de algum traço arquitetônico que chamasse a atenção, pudesse ser o símbolo único e maior daquela cidadezinha.
Minha esposa é filha de Raimundo Araújo, legendária e histórica figura da antiga localidade de Araras de Baixo. A família dos Araújo, assim como inúmeras outras, devido à construção do açude do Araras, teve de deixar sua humilde casa de chão-batido e se mudar para aquela parte mais alta das proximidades, a oeste da barragem, a Piçarreira, que, mais tarde, tomou o nome de Araras e, hoje, é Varjota.
Desde que me vi casado com Francisca, uma varjotense da gema, que amava suas origens, frequentemente passávamos alguns dias de férias em Varjota e, desta forma, acabei me apaixonando também por essa cidade. Depois, percebi que meus dois filhos também foram pegos por essa paixão.
A casa de meus sogros, Seu Raimundo e Dona Tatinha, hoje toda reformada, ficava bem defronte à igreja, do outro lado da rua. Ela era parecida com aquelas que, em Minas, minha terra natal, costumamos chamar de “casa da vó”, onde, o dia inteiro e, até noite a dentro, era um entra e sai, sem fim, de parentes e de amigos.
Todas as noites, eu gostava (e ainda gosto, até hoje) de sentar-me na calçada da casa, sentir aquela brisa fresca, prosear com os amigos, tomar uns goles de cerveja, que ninguém é de ferro, e ouvir histórias sobre a cidade. Diante de nós, naqueles momentos, tínhamos como testemunha a torre da Igreja Matriz de Nossa Senhora de Santana, com uma cruz iluminada no seu topo, a mesma torre que servia de referência para todos que diante dela passavam, tanto os da cidade, no vai e vem do dia a dia, quanto outros tantos, viajantes, em direção a seu destino.
Varjota sempre se destacou, regionalmente, como um importante ponto de passagem para outras cidades, sendo este detalhe uma das principais causas de seu atual desenvolvimento. Todo viajante, vindo de Sobral, de Santa Quitéria, das cidades da Serra, do Ipu e do sul do Estado do Ceará, tem Varjota como ponto de passagem. Neste caso, todos, obrigatoriamente, têm de passar diante da igreja matriz de Nossa Senhora de Santana. Desta forma, essa histórica igreja, passou também a ser uma referência nas vidas dessas pessoas.
Uma das histórias ouvidas a respeito da igreja de Varjota foi-me contada por meu sogro, Raimundo Araujo.
Aquela igreja fora construída, com a ajuda de uns e de outros, pelos funcionários do DNOCS e peões da construção da represa. Não houve projeto arquitetônico e estrutural, nem tampouco necessidade de licença da prefeitura para sua construção. Naquele tempo, não havia essas coisas. Tudo foi feito de maneira empírica. Apenas, talvez algumas pessoas tivessem imaginado como deveria ser a igreja e sua torre. A seguir, todos, voluntariamente, puseram mãos à obra, edificando a igreja e sua torre em pouco tempo.
No ano passado, da mesa de leitura da sala de nosso apartamento, no Rio de Janeiro, ouvi Francisca falando ao telefone com alguém, em Varjota. Interrompi o que fazia, naquele momento, para prestar atenção àquela conversa, pois o assunto me interessava. Para minha desolação, ouvi dela que haviam derrubado a fachada da igreja da cidade, para a construção de outra. Fiquei pensando: “derrubar um prédio histórico, destruir a memória de uma cidade? Por que não construir outra igreja, em outro local, preservando, assim, a memória de um passado histórico?”
Em janeiro deste ano, por ocasião da comemoração do aniversário de minha esposa, em Varjota, da calçada da brisa sempre fresca, pude observar, com tristeza, que, de fato, haviam posto abaixo o símbolo maior de Varjota: a torre da igreja de Nossa Senhora de Santana.
De regresso a Fortaleza, tive o prazer de conhecer José Magalhães e sua esposa, Lúcia, os quais me pareceram também tristes pelo que haviam feito à igreja. Viajamos no carro particular cedido por Gentil Magalhães, outra figura emblemática de Varjota. Durante a viagem, Lúcia fez uma observação, que me chamou a atenção, a respeito da destruição de um patrimônio histórico, de Varjota: “o que seria de Ouro Preto se destruíssem suas igrejas?”.
No caso da histórica cidade mineira, isto não seria possível, pois suas igrejas são tombadas pelo IPHEA – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico, de Minas.
Em Varjota, a derrubada da histórica fachada de sua igreja matriz só aconteceu porque ela não havia sido tombada. Todo tombamento decorre de iniciativas de sua população, da Prefeitura, da Câmara de Vereadores e do próprio IPHEA cearense, e isto ainda não havia sido feito.
Contrastando com a visão cultural de Lúcia, tive o dissabor de ouvir de alguns varjotenses comentários que me deixaram desolado. É claro, foram observações de pessoas humildes e sem cultura, merecedoras de minha compreensão. Muitos achavam que a construção era feia e que, por isto, deveria ser refeita. Ora, pode-se tombar um prédio não apenas pelo que ele tem de estética, de belo ou de feio, senão também, e, principalmente, pelo que representa na história da cidade.
Parece-me, contudo, que nem tudo está perdido. Embora não tenha sido feita consulta à população sobre a reconstrução de sua igreja principal, parece-me que a maioria dos varjotenses com os quais pude conversar sobre o assunto, gostaria de vê-la reconstruída, porém mantendo-se sua torre original. Eu, varjotense de coração, que sou, também penso assim.
Neste sentido, faço um apelo aos políticos, religiosos, vereadores e a todos varjotenses ligados, de alguma forma, ao ensino, à arte, à música, à cultura e à história da sua cidade, para que, se for o caso, e de alguma forma, ao reconstruírem sua igreja matriz, tentem manter sua histórica fachada original..
É de se lamentar o pouco zelo do IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico, do Ceará, que nada fez para impedir a derrubada daquela igreja, a qual, bem que poderia ter sido declarada como patrimônio histórico da cidade.
Rio de Janeiro, 23 de fevereiro de 2010
Paulo Gonçalves Pereira
O autor desta crônica é ex-seminarista, geofísico e Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil, em exercício no Aeroporto Internacional do Galeão.
É casado com a varjotense Francisca Araujo Mesquita Pereira e escreveu o romance TODA A TERNURA DE UM HOMEM.
E-mail para contatos: pgpereira@terra.com.br
08/03/2010 |