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CAMPO DE CONCENTRAÇÃO NO IPU

Olívio Martins de Souza Torres

O político, filósofo e tribuno romano Marco Túlio Cícero já proclamava há mais de dois mil anos que “Historia magistra vitae”, isto é, “A História é a mestra da vida”.
Esse pequeno e despretensioso trabalho, ora apresentado, é um relato sobre o que aconteceu no Ipu em 1932, quando foi instalado o Campo de Concentração, tendo como base informações transmitidas pelos senhores Francisco Elmiro Martins (meu tio-avô), João Anastácio Martins e Abdias Martins de Souza Torres (meu pai) – testemunhas oculares do evento -, além do livro da Profª. Kênia Sousa Rios intitulado “Campos de Concentração no Ceará”.
Quando se ouvem as palavras campo de concentração, o pensamento conduz célere aos horrores da Segunda Guerra Mundial. E logo vem à mente o famoso campo de extermínio de Ausschwitz, na Polônia.
Quem o adentra, vê logo no portal, em semicírculo, a inscrição em alemão: “ARBEIT MACHT FREI” (O trabalho liberta).
Os Campos de Concentração no Ceará, também chamados de “currais” do Governo, não se comparam, nem de longe, aos de extermínio dos nazistas.
Foram construídos em lugares estratégicos, próximos a uma Estação Ferroviária da Rede Viação Cearense (RVC). Eram locais de confinamento de sertanejos famintos, expulsos de seus lares pela impiedosa seca de 1932.
A Interventoria do Ceará, tendo à frente Carneiro de Mendonça, autorizou suas construções. Foram sete no Ceará. Ipu foi um deles, o único na zona norte do Estado.
Declarada a grande seca de 1932, foi instalado o Campo de Concentração de Ipu, no lugar denominado Espraiado, a três quilômetros da cidade.
O Prefeito (interventor), Sr. Joaquim de Oliveira Lima, encaminhava para o local os retirantes vindos da região e de municípios vizinhos, bem como de Mombaça, Maria Pereira e Serra das Matas.
Levas e levas de sertanejos chegavam de trem, a pé e de outros meios de transporte. O Campo era cercado de arame farpado, com enormes galpões para abrigar os flagelados da seca, onde recebiam comida e remédios. De princípio, sem a obrigatoriedade de trabalho da parte de seus ocupantes.
Era, na realidade, uma verdadeira prisão. De lá só saíam para trabalhar em obras externas, vigiados por guardas atentos e, muitas vezes, truculentos.
Dentro do Campo funcionavam também uma alfaiataria, uma carpintaria e uma funilaria. A barbearia também ocupava algumas pessoas. O objetivo da administração era não deixar essas pessoas ociosas, sem fazer nada.
Havia também uma capela onde o vigário de Ipu, Monsenhor Gonçalo de Oliveira Lima, celebrava missas, fazia confissões, batizados e casamentos, semanalmente.
Os encarregados dos trabalhos no Campo eram os senhores Antônio Quixadá, Francisco Simeão de Azevedo e Deocleciano Alves Cavalcante, sob o comando do Interventor Joaquim de Oliveira Lima.
O serviço de assistência médica em Ipu queixava-se muito das dificuldades em vacinar os sertanejos contra o tifo, a varíola e a disenteria, bem assim pôr em prática as regras básicas de higiene, como cortar cabelo e tomar banho.
No final de junho de 1932, o CC de Ipu já contava com 6.507 pessoas. Devido às doenças (tifo, disenteria, sarampo), o Obituário da Igreja Matriz do Município de Ipu registrava uma média diária de seis a sete mortos.
Com as chuvas caídas nos primeiros meses de 1933, o Governo ofereceu passagens e distribuiu sementes aos flagelados que foram regressando às suas localidades de origem.
Encerravam-se, assim, as atividades do Campo de Concentração de Ipu.
Este é apenas um pequeno e ligeiro relato dos acontecimentos em Ipu na seca de 1932, cujo objetivo é apenas informar aos ipuenses, notadamente aos mais jovens, o que se passou em nossa terra naquele período.
Aos historiadores que se dispuserem – e isto se faz necessário – a escrever a História de Ipu, caber-lhes-á aprofundar o assunto, analisando-o sob os aspectos históricos, sociológicos, antropológicos e culturais.



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